# cântaro em beira de fonte
Com a idade sinto vir vindo esta coisa de me dar mais gozo o jogo do que o lance. Prefiro este limbo que termina no derradeiro instante em que tudo está ainda e para sempre em potência e despeço-me antes da concretização do mais ínfimo movimento inicial. Que é para tudo poder ficar para sempre a poder ser tudo e mais o mais que se queira. Profundamente sebástica, eu, portanto. A esfumar-me num nevoeiro e a obrigar a que de mim não permaneça mais do que a fleuma do desejo por cumprir, eternamente adiado. Etereamente desejada, eu. E só. Por ser quanto basta e me satisfaz. Por não querer sequer chegar a ser amada. Simples! Fácil. Só.
# exercício físico
Brinca e morre aqui. Como se fosse a sério. Fazendo do meu corpo o teu treino mais exigente, o teu ginásio de eleição, o peso mais desafiante que levantas e sustens vezes sem conta, incontáveis vezes na travessia da hora longa, até todo o suor te alimentar incansável dessa fome que não se explica e estende mesa só a alguns. Os que a vida faz que se encontrem. Como nós. Tu e eu.
# mensagem de parabéns
Morde coisas à saliva que não gasto, que é para ver se me importo e faz diferença, que é para ver se ainda me lembro do que fui. Quando tu ainda eras tu e eu menos outra do que agora.
# sagitário
Talvez eu já soubesse e tu não. Talvez a única diferença entre nós tenha sido o meu privilégio de primeiro ter cruzado caminho com quem me mostrou desde cedo que ninguém tem como renegar por toda a vida a natureza de que que é feito e que, assim sendo, mais vale aceitá-lo desde o começo e nem sequer desbaratar esforços a lutar contra o impossível. Mais vale prender a não ter medo que é para não desperdiçar muito tempo a erguer barreiras vãs que, mais tarde ou mais cedo se hão-de desmoronar como juncos frágeis. Ser-se o que se é e pronto. Nenhuma tragédia, nenhum drama, nenhum preconceito. Nada de medos, nem pânicos, nem defesas.
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Talvez a vida nunca tivesse querido que te cruzasses com ninguém que te mostrasse que as muralhas da pedra mais estanque também cedem aos terramotos. Foi por isso que nunca fiz grande caso da pose, nem da aparente displicência. Porque sabia, antes de ti, que se chegasse a hora de nada te valeriam e teriam que ceder sob o fatal peso das coisas incontornáveis. E assim foi. Hoje. Aqui. Uma semana depois, os primeiros sinais claros de que começas a desistir de opor resistência. Já percebeste que és mais feliz quando não te debates contra as correntes e a ventania. Em breve perceberás sozinho o mais crucial na aprendizagem: que sempre que te entregares e deixares ir chegarás mais longe, viverás coisas que de outra forma te continuarão vedadas para sempre, não pelo facto de te serem impossíveis, mas por não seres capaz de as permitir a ti mesmo.
# em bruto
Correr-te a boca. Beber de um trago o sal de um dia inteiro do suor do teu trabalho. Do teu esforço. Dessas horas duras de um mundo que não é o meu e quero muito saber como é, como dói, como pesa.
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Sei exactamente cada uma das coisas que acho graça em ti. A começar pelo silêncio, cansada que me descubro de gente inteligente, que sabe sempre muito bem o que diz e só diz coisas interessantes, que fazem pensar e disparam o cérebro a mil. Gosto da absoluta simplicidade de não haver em ti nenhuma inquietação metafísica, de seres só força bruta, diamante sem oportunidade e por polir. Gosto dos “erro do teu português ruim” e desses dedos deformados pela vida, tão capazes de dobrar o aço e suster a pedra como de delirar leves no tactear do meu corpo. Gosto que da estranheza que as alegrias causam em ti, tão completamente pouco familiarizado com as coisas felizes, belas e delicadas. Gosto do eco inaugurar dos teus deslumbres e gosto desse rasto vago de quase medo que fica atrás dos teus olhincrédulos de mim, sempre a tentarem descortinar se sou real ou só miragem.
# optimismo
Algures entre mim e ti há, ainda hoje, um fio de cimitarra a fender ao chão a mesma avisada linha que nos poupou, senão o coração, pelo menos a vida e o que restava do juízo.
# tritão
Tarde, lá longe, vieste-me de novo falar ao fundo. Trouxeste um lampião a arder e outra vez o aroma morno do azeite se confundiu à cera limpa que me tinham esfregado aos pés da cama. Calei-me, para ver se o barulho do vazio te confundia menos que as apneias a espaços das minhas asfixias e delírios. Deveria saber que quem boia no Atlântico não receia a noite nem o desperdício, mas só me lembrei depois. Mais tarde. Quando acordei e me sobressaltou esta vaga impressão de ter sonhado que te sorri.
# tudo muda, só não muda quem morreu
Eu rio alto porque sei que, afinal, tu que crês tudo saber hoje já não sabes nada nem coisa nenhuma. Rio alto, ainda mais alto, imaginando-te a comprar o desafio da esfínge, segura (sempre tão certa e segura!) de ter bem presa entre as mãos a chave de todos enigmas e a falhares redonda a resposta mais improvável. Alto, te digo, vou eu rindo aqui. Por saber que perderias todos os dedos da mão esquerda, depois de, um a um, empenhares os da direita. Quem haveria de dizer, Meu Amor, que o café me agonia e acordo antes dos pardais?!
# ponto de fuga
Havia um sueste brando, uma costela partida, talvez uma maçã de adão por trincar. Havia uma sina moura, um degredo de fado e uma lasca em farpa que não deixou espinho à carne. Mas, então, levantou-se do fundo da eira uma poeira fina, a avançar contra o olho como uma serpentina. Veio vindo sem mais alarde que o dos pássaros ao largo e trouxe com ela uma névoa embriagada. Um manto. Uma capa na esguelha da asa. Uma foligem rala. E, aos poucos, ficou só uma preguiça – injusta, é provável; ainda assim uma preguiça. Qualquer coisa mal quista mas que, todavia, pareceu ainda mais doce do que o acaso de dois braços selados em redor.
# primeiras rugas
Reparo agora (enfim!) que as primeiras rugas começam a fazer-se notar e a aparecer nas fotos. Só não sabia que me iam fazer estremecer, afinal, e ao contrário do que sempre pensei. Tanto eu desejei estas rugas! Tanto que as imploro desde criança, firme neste projecto de me tornar um dia uma velha sulcada a rugas, criação literária mais completa e perfeita a que se pode aspirar, essa de trazer impressa na pele um livro aberto com a vida escrita, parágrafo por parágrafo, aos olhos de todos. Até dos analfabetos. E, todavia, agora que começo a não ter como não as perceber, um medo fininho pica dentro de mim devagar e embaraçado. Acho que é por medo de traçarem bem diante dos meus olhos a linha de todo o tempo, de todos os anos, dias e noites que desperdiçamos (ainda desperdiçamos!)… Medo que, se o dia em que vieres chegar a chegar como sempre repetias, já não me reconheças… que não mais reconheças em mim a “tua menina” se acaso a vida nos voltar a colocar frente a frente e me olhares como me prometeteste que farias sempre, antes – quem sabe?! – de te dares conta de que o tempo afinal também passa por cima dos mitos. Mesmo dos que nos são mais caros. Igualzinho ao que faz com os amantes.