# optimismo
Algures entre mim e ti há, ainda hoje, um fio de cimitarra a fender ao chão a mesma avisada linha que nos poupou, senão o coração, pelo menos a vida e o que restava do juízo.
# tritão
Tarde, lá longe, vieste-me de novo falar ao fundo. Trouxeste um lampião a arder e outra vez o aroma morno do azeite se confundiu à cera limpa que me tinham esfregado aos pés da cama. Calei-me, para ver se o barulho do vazio te confundia menos que as apneias a espaços das minhas asfixias e delírios. Deveria saber que quem boia no Atlântico não receia a noite nem o desperdício, mas só me lembrei depois. Mais tarde. Quando acordei e me sobressaltou esta vaga impressão de ter sonhado que te sorri.
# tudo muda, só não muda quem morreu
Eu rio alto porque sei que, afinal, tu que crês tudo saber hoje já não sabes nada nem coisa nenhuma. Rio alto, ainda mais alto, imaginando-te a comprar o desafio da esfínge, segura (sempre tão certa e segura!) de ter bem presa entre as mãos a chave de todos enigmas e a falhares redonda a resposta mais improvável. Alto, te digo, vou eu rindo aqui. Por saber que perderias todos os dedos da mão esquerda, depois de, um a um, empenhares os da direita. Quem haveria de dizer, Meu Amor, que o café me agonia e acordo antes dos pardais?!
# ponto de fuga
Havia um sueste brando, uma costela partida, talvez uma maçã de adão por trincar. Havia uma sina moura, um degredo de fado e uma lasca em farpa que não deixou espinho à carne. Mas, então, levantou-se do fundo da eira uma poeira fina, a avançar contra o olho como uma serpentina. Veio vindo sem mais alarde que o dos pássaros ao largo e trouxe com ela uma névoa embriagada. Um manto. Uma capa na esguelha da asa. Uma foligem rala. E, aos poucos, ficou só uma preguiça – injusta, é provável; ainda assim uma preguiça. Qualquer coisa mal quista mas que, todavia, pareceu ainda mais doce do que o acaso de dois braços selados em redor.
# primeiras rugas
Reparo agora (enfim!) que as primeiras rugas começam a fazer-se notar e a aparecer nas fotos. Só não sabia que me iam fazer estremecer, afinal, e ao contrário do que sempre pensei. Tanto eu desejei estas rugas! Tanto que as imploro desde criança, firme neste projecto de me tornar um dia uma velha sulcada a rugas, criação literária mais completa e perfeita a que se pode aspirar, essa de trazer impressa na pele um livro aberto com a vida escrita, parágrafo por parágrafo, aos olhos de todos. Até dos analfabetos. E, todavia, agora que começo a não ter como não as perceber, um medo fininho pica dentro de mim devagar e embaraçado. Acho que é por medo de traçarem bem diante dos meus olhos a linha de todo o tempo, de todos os anos, dias e noites que desperdiçamos (ainda desperdiçamos!)… Medo que, se o dia em que vieres chegar a chegar como sempre repetias, já não me reconheças… que não mais reconheças em mim a “tua menina” se acaso a vida nos voltar a colocar frente a frente e me olhares como me prometeteste que farias sempre, antes – quem sabe?! – de te dares conta de que o tempo afinal também passa por cima dos mitos. Mesmo dos que nos são mais caros. Igualzinho ao que faz com os amantes.
# lampejos de relance
Sim, eu podia chamar-te. Só um palavra, um telefonema, um telegrama ou uma mensagem e aposto que virias, sim. Para o meio das minhas pernas, para o centro dos meus braços. Porque nunca seria por mais do que por meia dúzia de noites mal contadas. Porque nunca haveria de ser, como bem sabes, com aquela vontade de que fosse para toda a vida, “mesmo que por um dia”. Como antigamente. E é por isso que nem mexo um dedo. Assim já não sei gostar de ti e por mais que me esforce não te preciso o suficiente para aprender a gostar.
(…)
Fica pois onde estás, que assim como assim sempre vou preferindo as minhas paixões tangíveis, que eu nasci sob o signo do fogo e a vida procura-me e acha-me mesmo fazendo eu tão pouco para a encontrar.
# maternidade
Salva-me, Querida, deste estúpido desejo de também eu voltar a querer ter outro filho, um família, ser normal como eles e ter sempre uma luz acesa dentro de casa. É uma idade perigosa, esta. Um limiar de ‘agora-ou-nunca’, capaz de me fazer fazer um qualquer disparate sem volta que, vistas bem as coisas só sirva para ainda me afastar mais de ti e nos fazer bem mais impossíveis do que já somos. Eternamente adiadas. Por mais tempo do que este que já há tanto nos dura sem que se aviste fim ou encontro!…
# ‘marinha’
Estive na nossa praia, Meu Amor. Estive e já não queria crer que algum dia aqui fui tão feliz e também tanto chorei e sofri, até ao limite dos humanos intoleráveis. Porque hoje, tu queres crer, tentei e já nem sequer conseguia recordar-me de mais do que da cor do teu fato-de-banho, que acho que era encarnado. Achas possível??
Vês? Estou a perder a memória e a culpa é toda tua. Só tua! Inteirinha tua. Porque te demoras tanto que, mais um pouco, e eu já nem saberei com exactidão que contornos tinha o teu rosto quando olhava e amava mais do que a mim mesma.
# homens da atlântida
Algures a boiar no oceano há uma ilha de homens que me interessam e hoje sei que podia amar. Um por um, cada um por um motivo diferente e inconfundível. Eles: os descendentes da linhagem mais estreita dos atlantidas que, vá-se lá saber como, sobreviveu à fúria das águas e à amnésia das eras vindouras.
Portanto, um dia eu voltar-lhe-ei. Eu sei. Eles sabem. Todos juntos sabemos. É a lei dos ancestrais: os iguais reconhecem-se. Os que pertencem à mesma tribo avançam numa mesma direcção. Pode demorar muito tempo, mas mais tarde ou mais cedo acabam sempre por se encontrar. Convocados a um mesmo lugar. Falando a mesma língua. Em nome da espécie. Para prevenir a sua derradeira extinção.
# meio século nas veias
Gosto disso que ficou do rasto apagado de todas as mulheres que passaram pela tua vida. E desse efeito contra o qual lutas, quando me olhas incrédulo, sem nenhuma suspeita de todas as pistas e evidências que me levaram a pressentir-te. E chamas-me “princesa” porque esquecido do que foste, certo e seguro do meio século que te infla as veias, crês que não sou senão a sereia da lenda, aquela que vem com o luar para encantar os homens e os deslumbrar enquanto a luz de prata dura no horizonte. Princesa e sereia diante de ti: uma prenda das águas, destinada a premiar aqueles que resistiram sem partir, teimosos e tinhosos, firmes como um baluarte edificado no planalto além-mar, que se dissolve entre a espuma, quando a maré arremete.