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Archive for Maio 2008

# aceitação

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Meu Amor, promete-me que choras só baixinho e sem eu te poder ouvir, no dia em que já não fôr capaz de te amar nem sequer mais um bocadinho! Promete… Promete…

Escrito por Maggie C.

Maio 19, 2008 em 3:48 pm

Publicado em Testamento

# a medida de todas as coisas

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Anda correr ladeiras que hoje ela não está cá. Já não a vejo e quase não a sinto e relances há em que nada me pede para que lhe suplique a volta. Anda vamos voltar ao que éramos, quando nada na planície crescia que nos parecesse maior e mais esbelto que a sombra de nós duas a suar ao sol. Anda, vem e vamos. Só a ver se ainda nos encontramos ou se nos enganámos mais do que devíamos e em vez do tronco era uma haste e em lugar do patamar uma tábua tosca, demasiado estreita para nos servir de apoio. Anda, vem. Vem e anda: corre já! Que o mundo afinal é um lugar onde se somam perfeições muito para além do que nos tinham ensinado a contar, e tudo é ainda mais fantástico do que supunhamos, tudo nos deslumbra mais do que chegámos a imaginar e, se não corremos, se não andamos depressa, nem corremos muito e já, cedo olharemos uma para a outra e nada nos parecerá que valha a pena ainda continuar a cobiçar.

Anda, eu já disse! Não vês que luto para continuar a querer que sejas tu e só tu, hoje, ainda e para sempre, a medida de todas as coisas que para mim existem e são concebíveis???

Escrito por Maggie C.

Maio 19, 2008 em 3:47 pm

Publicado em Testamento

# se eu acreditar em ti

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Se eu acreditar em ti, corro com outros os lugares que podiam ser nossos. Beijo bocas que não sejam a tua. Abro as palavras que me vão na alma, na pele e no peito ao rebordo de outra fronha, outro referente e destinatário. Deixo que outras mãos me cheguem além das marcas de onde me andaste. Se eu acreditar em ti. Se eu acreditar em ti, deixo-me rir e mimar aos olhos de todos, por outro amor que já não vem de ti. Apresento às pessoas alguém com um nome diferente do teu, revelo-a pelo nome, dou-lhe corpo, vida, existência e a espessura que até agora sempre lhe neguei. E entrelaço-a com os planos dos outros, consinto que me liguem a ela pelos possessivos e pronomes que até à data, pelo menos e apesar de tudo, ainda continuavam a parecer ser só teus. Mesmo que não mais fossem devidos. Mesmo que não viesses. Mesmo que andasses esquecida. Mesmo que não fizesses grande caso. Se eu acreditar em ti, um destes dias estaco à tua frente, apresento-te quem te sucedeu no lugar onde te esqueceste de morrer com saúde. E, se acontecer que lívida e pálida desmaies, crente de ver uma assombração, não vou dizer-te que eu lá estarei com um copo de água com açúcar que te reanime. Mas podes ter a certeza que a meu lado há-de estar quem não se avexe em te pegar no braço e te pagar um copo, mesmo andando tu a fazer que sim e que não, há tanto tempo, a ver se lhe desinquietas a namorada para coisa nenhuma que não esse lento agravar de uma loucura que é poço sem saída, de onde nada sai que matar a sede permita.

Se eu acreditar em ti, a partir de agora morria-te atravessada na garganta como o teu maior erro irreparável. Sorte a tua que não te acredito. Sorte a tua que com nenhuma palavra me convences. Sorte a tua seres mentirosa.

Até mais logo, Meu Amor. Onde calhar de ser que a verdade nos viva para além do medo e da teima.

Escrito por Maggie C.

Maio 19, 2008 em 3:34 pm

Publicado em Testamento

# mesmo sem tu pedires

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Não é porque sei mais de nós do que tu que, de vez em quando, ainda tomo a meu cuidado olhar por ti, mesmo que o não peças ou me digas que tanto te faz e não precisas. Não é sequer que tão pouco suspeite do que é que ao certo te protejo. É que te conheço, senão melhor do que tu própria, pelo menos melhor do que alguma vês sonharás deitar-te a supôr que te conheço.

Escrito por Maggie C.

Maio 19, 2008 em 2:57 pm

Publicado em Testamento

# não me dês pesos para a mão

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É certo. Tu não dizes. Mas olho para ti e vejo-te continuar confiada à mesma espera de que te poupe e salve do que quer que seja que te possa fazer doer além do que crês tolerar sem grande custo e qualquer eventual dor que ainda desconheças. E deixas-me assim, sem grande escolha que reste, a não ser esta, que me agrada pouco e de dia para dia menos, que zelar pelos joelhos de alguém é tarefa ingrata e eu ando cada vez menos dada a transportar pesos e cargas duras, desde que te deixei. Portanto, Querida, tenta não me transferir excessivos fardos para a mão, que, longe de ti, dei comigo capaz de uma embriagante leveza de que não me apetece nem um bocadinho curar agora.

Achas que consegues, pelo menos, arcar tu com esse esforço?

Escrito por Maggie C.

Maio 19, 2008 em 2:46 pm

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# confuso??

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E se eu te disser que, mesmo que quisesse, não tenho como levar um bocadinho de ti, comigo ao fado? Porque quem é do fado vai a ele de alma e corpo em pleno. Não tem espaço, nem condição para ir até ele aos retalhos e com bocadinhos seja de quem for. E acontece que o único ser que se me dá por inteiro é o meu. Só a mim me tenho por inteiro, a ninguém mais. Desculpa, Querida. Do fundo do coração: perdoa-me e não te aborreças comigo. Eu juro que bem que gostava e algumas vezes o quis e cheguei a tentar. Mas, se queres realmente saber, a verdade é não tenho como levar seja que mulher fôr comigo ao fado. Nem mesmo tu. Nem mesmo agora, apesar de tudo o que foste para mim antigamente. Perdoa. O fado é um lugar só meu, que jamais poderei partilhar e que não tenho a menor disposição para dividir contigo, seja onde e quando fôr.

Escrito por Maggie C.

Maio 17, 2008 em 10:28 pm

Publicado em Testamento

# ‘Mais Feliz’

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Daqui a pouco, vou-te perguntar e sei que me vais dizer que viste, sim, tal como eu. Porque mesmo não sabendo de ti dentro da sala, não duvido por um segundo sequer que também não te passou de revés a mulher na bruma de verdes, a escorregar ao chão, a roçar os pés do microfone como uma serpente em feitiços de bossa, a cantar-nos os encantos de sermos uma e só na mesma pele, uma e só no mesmo pacto ancestral das que furam os dedos e não param de jorrar. E eu sei que vou chegar, madrugada alta, e que tu hás-de estender-me uma taça pronta do teu vinho mais rubi e lembrar-me que a voz desta é a instância inaugural da pérola ofertada da outra, no começo do novo milénio, quando hora foi e chegou a que me puxasses a ti para afinar pela metade certa e mais exacta do mundo.

Escrito por Maggie C.

Maio 14, 2008 em 11:52 am

Publicado em Enigmas, Vidas

# ser só feliz, feliz

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Sabes que eu gosto de me rir, de ser disparatada e inconsequente, de fazer o que me dá na telha, sem grande aflição com pesos e mediduras, não sabes?! Então, o que te espanta?! Se alguma coisa se alterou talvez tenha sido só esta benevolência do tempo, que me corrigiu, sem eu dar por isso, ao único erro que nunca devia ter cometido: largar-me do viço e do quero mais, quero muito, quero isto, quero aquilo e quero já, que já é agora e agora não pode esperar. Dito o que faltava, podes, por favor, ajeitar-me a mão à cintura, levar-me pelo caminho da rua, fazer-me crescer na saliva duas ou três gargalhadas e rir da minha fome faminta que estás prestes a devorar?!. Grata! Sempre. Eu: como sempre. Bem hajas!

Escrito por Maggie C.

Maio 12, 2008 em 7:41 pm

Publicado em Vidas

# sete vidas como os gatos

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Sim, eu digo e repito: tempos há que demora a perceber que a vida te amorrata e espreme até sangrares todo o sangue que era o teu, que é para te devolver a mágica capacidade de seres outra e mais, ainda que aparentes o mesmo corpo. Porque é preciso que nada fique e muito pouco sobre para que a vida se abra do início e se desembarace sem dano de todos os glóbulos brancos que lhe torraste, de todas as enzimas por queimar com que a entupiste e deixaste que te intoxicasse.

Posto isso, descobrirás, como eu, que o pior já passou e que até mesmo o facto de outra vez dares contigo sem saber se a química vai acontecer, se vontades fortes te hão-de ou não assediar na manhã seguinte como no instante anterior te pareceu, sem outra vez saber se será que há-de ser por uma vida ou por um instante, se o telefone vai repetir o toque e novos manjares, novos lugares, novos vícios, planos, códigos, dialectos ou caprichos, se todas essas metades e complementos essenciais, vão eclodir do ínfimo ralo e incerto que se insinua sem garantia, se tudo isso vai alguma vez ter mais consistência do que o mero desejo ou suposição.

Porque imagina, pode até acontecer, que na nova vida nada venha a deixar saudade e a vingar mais que um derradeiro instante de presente. E então, qual é o drama? Tens assim tanto medo de seguir adiante sem a segurança de arrastar atrás de ti um fantasma maior que tu, que possas bramir como um escudo para assombrar os dragões que lá à frente te queiram saltar ao caminho?!… Pois não tenhas. A vida é capa dura talhada sob o mistério de uma casca ainda mais grossa e, mesmo quando abre fissura, não racha com facilidade só por não levar consigo o que a defenda. Olha em redor e busca no mundo algum exemplo ou lição que te sirva e salve.

Eu, por exemplo, dou comigo a amar profundamente esta coisa de não fazer a menor ideia se outra vez a vou amar e dar a vida por ela, ou se sequer ela me há-de achar alguma graça, que a faça voltar aqui depois da última vez em que nos vimos. E então?! Não é aí que mora o encanto supremo onde tudo finca raíz para ser princípio?!… mais que não seja, de um mal nenhum que não chega jamais a vingar o suficiente para ganhar dimensão que nos mude e atormente.

Escrito por Maggie C.

Maio 12, 2008 em 7:29 pm

Publicado em Testamento

# fincada ao chão

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Perguntas se estou segura de afundar os pés ao brotar de uma nascente, ou se acaso os adentro ao lodaçal  cerrado que, junto ao ancoradouro, empresta à poça estagnada uma certa ilusão reflectida de lagoa verde. Mas sabes, não me cabe a mim dar nome e cor às águas onde se me afundam os tornozelos, que eu nasci para  mergulhar e gosto de me mover a roçar o fundo de todas as coisas, sem que medo me assole de ficar presa à lama. Porque se eu fosse para ser dos cumes e da superfície, vogava no vento com o ar, tinha nascido soprada como um balão e ausente de peso como as penas que pairam. Não me teriam nascido duas pernas para dar suporte ao corpo, a crescer na direcção do chão.

Escrito por Maggie C.

Maio 12, 2008 em 12:44 pm

Publicado em Interpelos