Archive for Junho 2008
# nem praga, nem maldição
Às vezes acho que de tanto teres andado tão cá por dentro, ido tão cá ao fundo, tão para lá de mim e do que nos era humanamente suposto às duas, acabaste deixando a pele dos dedos tatuada nas paredes de dentro do meu corpo. Na época, nenhuma de nós se deu conta, mas à distância chego à conclusão que as tuas digitais se devem ter descolado da falange, que devem ter ficado coladas em mim e que, com o tempo, acabaram por fossilizar. Porque só assim se explica esta coisa de te saber e me saberes a mim, de me supores e eu tanto e tão espontaneamente te antecipar. Só assim se explica que, mesmo sem te ver ou saber de ti, te intua de tal forma que é como se a tua verdadeira identidade vivesse comigo, não me fosse estranha nunca e segredo algum de mim resguardasse. Porque só pode ser isso, Querida!… Tu não achas?? Pois eu não encontro outra explicação e, depois de tantos anos, de tanto pensar, é a explicação mais próxima ou, pelo menos, a mais plausível que encontro.
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Tremenda, eu não te disse?!, Querida. Esta coisa de nos sabermos tanto. Este tanto que nos poderia trazer a mais feliz das felicidades, ou então a mais cruel das crueldades. Perigosíssima. Porque a decisão de como iria ser morava apenas e só na nossa escolha. E nós sabemos, não é Querida?!, sabemos que não há nada mais perigoso do que a escolha estar nas mãos dos humanos. Porque apesar de tudo, não é Querida?!, tu e eu sabíamos que ainda eramos um bocadinho humanas. Sobretudo quando sozinhas, cada uma por si e para seu lado, sem essa coisa que nos fazia sobrehumanas. Porque sem estarmos juntas esvaía-se o escudo protector, esse envólucro mágico que nos diferenciava de tudo o mais que respirava. No fundo ambas sabíamos, não era Querida?!, ou se não sabíamos, pelo menos suspeitávamos, que voltaríamos a ser só humanas como toda a gente. Porque era eu, Querida, que te fazia outra da que sempre tinhas sido, tal como eras tu que me fazias outra da que eu sempre fora. Tremenda, portanto, eu não te disse?!. Esta coisa de nos termos sabido tanto. Esta coisa de ainda nos sabermos. Mas tremenda, acima de tudo, por termos decidido que fosse para o pior, em vez do melhor e feliz que poderia igualmente ter sido, quando a escolha repousa apenas e só na nossa própria escolha. Optámos, portanto, por que fosse mortífera e isso é que é tremendo. Tremendo por nos ter sido mortífera. Quase sempre. Como agora. Ainda. Porque se tu guardas memória de tudo o que de mim leste pelo tacto (no lugar da pele arrancada dos teus dedos), eu conservo registada (no decalque das tuas digitais descoladas que fossilizaram em mim) tudo que em mim deixaste lido e para ler. E é por isso, Querida, que conservamos mutuamente o poder de nos atingir uma à outra no ponto mais fatal, mesmo à distância, mesmo sem nos vermos, mesmo sem sabermos – como hoje – absolutamente nada uma da outra. Ou, pelo menos, nada adiante, nada do que veio a seguir a nos deixarmos. Nada que veio depois daquilo que já sabíamos em absoluto. Pelo simples facto de sermos uma na outra, de uma ser a outra e a outra ser a uma, como se nenhuma diferença houvesse que pudesse ser considerada.
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Dói, eu sei. é difícil, eu sei. Quase intolerável e, por conseguinte, impossível de aceitar. Eu sei. Sei porque já passei por isso. Ou deverei antes dizer, por esse estádio?! A verdade é que – e isto vale o que valer, já que a experiência demonstra que de pouco ou nada adiantam os avisos e que só batendo com a cabeça na parede se percebe o que, até então, parece incompreensível – a verdade é que sei. Sei que é mais fácil culpar a sorte, responsabilizar o mundo pelas avessas, e falar de karma, de praga, feitiço ou maldição. É fácil, Querida?!, eu sei. É tão fácil!… Tanto que o problema maior acaba sendo exactamente esse mesmo: pensar que assim é, ou – pior e mais grave ainda – que só pode ter sido por isso.
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… Portanto, Amor Meu, cai na real de uma vez por todas e não te tortures mais. Pára de te massacrar e vê se ultrapassas esse patamar. Passa de vez ao estádio seguinte. Quando é que, de uma vez por todas, páras com esse disparate de andar por aí aos pontapés à vida, a tentar convencer o mundo e a ti mesma, que foi pouca sorte ou maldição, que tudo não passa de uma estranho e forte feitiço, uma praga peganhenta e pessonhenta, que rogaram, pegou e ganhou raiz?! Foi o que, a dada altura quisemos e fizemos por querer, tu e eu. Foi escolha nossa e, até ao momento, a verdade é que nunca nos arrpendemos inteiramente dela, porque ainda assim continua a ser. Estava nas nossas mãos e decidimos assim, quisemos assim. Tinhamos escolha. Foi esta a opção. Esteve sempre nas nossas mãos, palavra. Nós é que escolhemos e preferimos que tivesse sido assim.
# na minha melhor poltrona
Socorro, Amor Meu!!… Estão a sentar-se na minha melhor poltrona e preparam-se para se refastelar, como tu gostavas de fazer, sem data nem hora para se levantarem. E o pior é que eu gosto da imagem tanto quanto gostava, durante o teu reinado!…
# sem condições
Queria eu, Querida, manter-te nesse intangível patamar onde nada te estremecia ou perturbava na ordem do que me é caro. Queria, Querida, e por muito tempo fui capaz. Mas é que confiaste demasiado no que em mim deixaste e nunca mais me deste nada. Nunca mais vieste colocar-me nada dentro. Passaste a viver confiada no muito que, em tempos, me trouxeste ao lado esquerdo do peito e nem uma haste seca ou despetalada achaste por bem vir cá deixar. E tinhas razão, por muito tempo bastou o que aqui tinhas deposto, Querida. Nesses tempos imemoriais e perfeitos que cada dia que passa vão mais e mais longe. Mas mesmo assim, é verdade: bastou, bastou sim. Bastou para te garantir continuar a ser teu e só teu o lugar que nunca mais visitaste. E bastou tanto que te deste ao luxo e ao descaso de nem tão pouco vir cuidar para que permanecesse a ser teu.
Mas agora, Amor Meu… agora eu olho, vejo e sinto que não mais chega para travar a torrente do irrecusável que me adentra. E não, não consegues competir pelo lugar que, de certa forma, ainda me esforço por garantir-te só a ti. Não consegues. Simplesmente, olho-te, vejo-te, não te sinto e sei que perdeste por tuas próprias mãos, abuso e excesso de confiança o lugar que por tanto te pertenceu absoluta e incondicionalmente. Mesmo sem nunca mais lhe teres voltado, mesmo com toda a ausência, silêncio, distância e desprezo. Mesmo assim foi teu por muito mais anos do que seria plausível e previsível. Quase um milagre, Querida! Conseguido em teu nome. Concedido por teu amor. Mas até os milagres têm que servir para alguma coisa e dar-nos ao menos uma face visível, um pedaço tangível seja do que fôr.
Portanto, Meu Anjo, limito-me a ser realista e a ver com os olhos do coração. Não já não estás em condições de competir seja com o que for, seja contra quem for, seja por quem for. Muito menos por mim e pelo lugar que te guardava aqui.
# força soberana, que todos derrotas
Isso, Senhora, sobe os dois braços no ar, solta num giro os teus cabelos de fogo e lume, que eu gosto de te ver sair de manhã ao mundo, assim. Exactamente assim. Firme e sem dobra alguma que te quebre. Hirta dessa certeza de que és soberana e vitoriosa, de que podes tudo e o mundo te pertence. Porque a verdade, Senhora, é que mesmo quando os meus indisciplinados ímpetos de alma livre e impertinente me atiçam a rebelar, não tenho como combater-te a evidência maior que ostentas segura e orgulhosa, peito aberto, destemido e apontado adiante, branca camisa de linho escancarada em redor, a esvoaçar ao ritmo de cada passo que dás. Dê lá por onde der, tenha lá ela bradado, ameaçado, jurado, esconjurado, ou seja lá o que for, és tu quem indefectivelmente sempre me teve do lado. Para o bem ou para o mal, com maior ou menos tranquilidade, és tu , sim!, quem sabe de mim e das minhas coisas. Não ela. Esse condão de me mexer no caminho, de me interferir com a alma e me mudar os dias, é teu, sim. É eu e só teu. Ela perdeu-se de mim e depois talvez tenha sido eu que me perdi dela. Não penses que nos aconteceu como a ti e a mim, que mesmo nos exasperos, nas brigas e fúrias, descaminhos, ausências, silêncios e descompassos, nunca nos perdemos desse fio de linho essencial a quem se ama. Não penses que foi como contigo, em que do epicentro de todos os nossos excessos, sempre mantivemos esse derradeiro laivo de descernimento e lucidez que nos impediu de pisar ou atentar para lá desse divisor sagrado que jamais e em circunstância alguma deve ser violentado seja por quem for. Não, não foi assim comigo e com ela. Houve demasiado abuso e excesso de confiança e – vejo-o claramente agora! – quando demos por isso não tinha ficado nada e a memória era coisa fraca e pouca para nos estender a tábua em falta.
Portanto, Senhora, sai sim, a cavalgar o mundo de peito rijo, ostentando o meu amor como o estandarte mais rubro e suado de que és vencedora. Porque hoje o que sei é que é a ti que reconheço como pátria, casa e lei. Dela?! Dela, Senhora, não sei se não que se perdeu e deixou que me perdesse. E nenhuma pena, Senhora, nenhuma dúvida, nem nenhuma lástima. Se queres que te diga, cresce cada vez mais em mim a certeza de que só existiu para me conduzir a ti. E se tudo foi como foi, era por que nunca poderia ter sido de outra forma. Porque era preciso que o amor havido fosse já extremo e forte para que eu pudesse reconhecer outro maior e ceder-lhe o lugar.
# ser amiguinha é…
Eu disse-te, um dia, faz agora uma eternidade: deixaste-me habituar demasiado a passar bem de mais sem ti. Disse-te que era perigoso isso. Disse-te que quando nos habituamos a viver sem alguém, deixamos de ser capazes de morrer à simples ideia da sua ausência, e que a saudade, mesmo quando nos visita, se transforma quase num interlúdio, num capricho a que nos damos só porque sabemos que, na verdade, não muda nada, uma espécie de fait diver a que nos permitimos só porque sabemos que já não mitiga nem dói, quase como se de uma pequena excentricidade se tratasse. Para introduzir uma nota colorida e diferente no curso dos dias, aquele que efectivamente importa e nos interessa. Por ser real e palpável. Por existir, no fundo. Ao contrário de tudo o que se dissipou e hoje é vago, como um fantasma ou uma incerta neblina difusa de cujos contornos já só com muito esforço nos conseguimos recordar ou aproximar com alguma precisão.
E vês, querida?! É por isso que hoje já te posso permitir que te reaproximes ou de novo te eclipses. É só por isso que já podes vir ou não vir, que está e estará sempre tudo bem. Não fazes parte dos meus dias, nem dos meus sonhos, muito menos dos meus sonhos. Deixei de contar contigo para o que quer ue me seja urgente essencial. Para dizer a verdade, voltou a ser como se mal te conhecesse e, como toda a gente sabe, nada do que é estranho nos causa mossa ou falta em demasia. Era para isso necessário que outra vez me interessasses ao ponto de correr o risco de de novo me apaixonar por ti. Era preciso que passasse contigo pelo menos tempo suficiente para te ver e saber de ti. Não é o caso e, portanto, está tudo bem e tudo é por fim pacífico. E ainda bem. Porque já não era sem tempo! Se era para nunca mais sermos coisa nenhuma não se compreendia porque tardava tanto a vir a paz de me perceber a já não sentir coisa nenhuma, ou seja, a colocar-me de acordo e em conformidade com a nova realidade em que a vida nos desembocou às duas, uma para a outra. E é por isso que, agora que eu tive oportunidade de constatar enfim e por mim mesma que é verdade e que tudo se recolocou nos devidos patamares, que posso ser tua amiga e deixar-te vago o espaço que imagino possas necessitar para me ter também a mim como tua amiga.
Só que sabes que mais, Querida, até nesta nova condição continuo a ter vontade de me queixar e de te sussurrar na descoberta: mesmo como amiguinha deixas muito a desejar, para não dizer que também não és lá grande coisa!… Desculpa-me a sinceridade e não me leves a mal. Suponho que seja normal: a cada novo estar correspondem inevitavelmente novas e diferentes perplexidades, não é assim?! Pois bem, deve ser por isso, então, que me tenho colocado frequentemente a mesma pergunta. Se é assim que és como amiga, não percebo o que é que tanto vêem na tua amizade. Será que vêem mesmo? Ou será que as tuas amiguinhas afinal não vêem o que eu pensava que viam?! Ou será que, no final das contas, o que sempre viram não é muito mais do que eu vejo agora?! Possivelmente. Provavelmente afinal é só mesmo assim que sempre te viram. Desculpa o espanto, mas é que eu imaginava que ser tua amiguinha fosse uma outra coisa bem diferente disto. Ele há surpresas, não é mesmo?!
# iscos voluntários
Deixo que te chegues a mim porque te pressinto a urgência de um qualquer favor daqueles que só os velhos grandes amores são capazes. E, se reparares, verás que permaneço apenas o suficiente para alavancar os teus dias de um modo que só eu posso. Faço o meu papel. Passeio-me uma ou duas vezes em público contigo, permito que voltem a ver-te na minha companhia e depois, acordado que está o fantasma fatal do regresso do ‘Grande Amor da Vida’, torno a deixar-te por tua conta e risco, certa de que saberás o que fazer com o jogo que ajudei a reverter em teu favor. Cumprida, pois, a minha tarefa, retiro-me para onde tenho andado e fico a pedir em silêncio que te chegue e não me peças mais, pois não saberia, hoje, dar-te muito mais do que te dou. Confio que te chegue e sirva de alguma coisa. Dá tempo ao tempo. Espera um bocadinho que há-de surtir efeito. Fomos eficazes, apesar de rápidas. Colocámo-nos com sageza nos lugares certos e foram muitos os que nos viram. A novidade há-de espalhar-se, correr e surtir o seu efeito. Quando menos esperares, ter-se-á reacendido o interesse em teu redor. Mais que não seja porque nnhuma mulher resiste à tentação de vir sobrepôr-se e derrotar um ‘Grande Amor’. Outra vez aguçado o móbil improvável de te fazerem esquecer-me, retornarás à ribalta onde humilhas, desprezas e dás cartas, quase te distraindo de que no entretanto não és feliz. Mas é preço de pouca monta. Nada que não consigas arrebanhar com algum esforço nas algibeiras. Bem vistas as coisas, tu sabes que nenhum preço é demasiado elevado ao lado do risco de outra vez te firmares a meu lado, seres tu e permitires-te outra vez ser desmedida, livre franca, genuína e feliz. Há demasiado medo ainda. E se arriscas e de novo te deixo? E se tens que passar outra vez por tudo de novo? Vês?! Sim, tu vês. E é precisamente por eu saber disso que, desta vez, nem sequer me perco em grandes justificações antes de me afastar. Assim como assim, tu dispensas que seja eu a explicar-te o que sabes melhor que ninguém. Que de pouco te adiantaria que eu ficasse ou demorasse mais um pouco porque não saberias o que fazer de mim. Há muito tempo que já não sabes e, o facto de continuares sem saber, solidifica em mim uma certeza mais simples e leve de que não estava enganada afinal, quando suspeitava que, ainda que a possibilidade tivesse sobrevivido, era já eu quem não queria que fizesses nada de mim. Para não ter que te dizer o óbvio: que sinto muito, mas não me consigo sentir envolvida por ti, mesmo quando tento. Mesmo quando me esforço, já não me sucede esta coisa de acordar e adormecer apaixonada por ti. Seja como for, eu já disse, não me arrependo de ter regressado por instantes para cumprir um papel que só eu posso assumir. Dá, portanto, tempo ao tempo como te tornaste exímia a fazer connosco. O simples rumor de mim outra vez e novamente ao lado teu há-de surtir o seu efeito e colocar a engrenagem em movimento. Não tarda nada voltarão a gravitar à tua volta e tu resgatarás o ascendente que gostas de sentir sob o teu controlo. Espero poder ter-te sido de alguma utilidade, Querida. Espero, pelo menos ter contribuído para voltares, se não a ser feliz, pelo menos a andar alegre, distraída e bem disposta como desde que nos deixámos.
Creio, sim, que é para isso que servem os ‘Grandes Amores’ quando desaparecem. Para nos continuar, ainda assim, a dar o que mais ninguém consegue estar em condições de dar.
# sem nenhuma hipótese
E se eu te pedir, Senhora? E seu te implorar e suplicar, se cravar dois punhos de fúria contra o teu bravo peito e te gritar não ser justo que chegues assim: pele tisnada, cabelo revolto, camisa desfraldada, forte (tão forte!), inebriante e desbragada, num momento em que ela está como a vês, fraca, confusa e desorientada?! Porque não é justo , Senhora, que lhe contraponhas os teus ímpetos irrecusáveis, quando se acha assim, dormente e esquálida, amorfa e sem encantos que lhe valham, pálida sombra apagada do torpel de vontades que outrora a fazia sobrehumana. Mas tu és loba indómita, predadora pouco habituada a obedecer a outra voz de comando que não o dos teus instintos e apelos. E não me escutas, nem ouvirás. Não vais dar-lhe arrego, nem piedade. Não vais sequer considerar esperar a eternidade que me vem pedindo a mim para se recompor e outra vez se decidir. E eu percebo, Senhora, eu entendo-te. Não a conheces e não te diz nada. Nunca te aconteceu amá-la como um dia, antes (muito antes de ti!), eu a amei. Mas mesmo assim te digo: não me parece justo. Não me parece mesmo nada justo. É tão desigual! A começar porque a simples ideia de ti me dispara a alma, a pele e o coração; enquanto que os dias vão e vêm e já dificilmente encontro nas horas espaço que me recorde que afinal ela ainda existe, que não morreu exacta e propriamente como julguei.