Archive for Julho 2008
# evidências
Soube que me amavas verdadeiramente, quando te sentaste a olhar-me dormir, só para eu poder sonhar à vontade.
# second chance
A vida voltou a colocar-te de frente para mim só para, finalmente, eu te poder dizer o adeus que nem tive tempo de te dizer quando o sangue me ferveu.
# critério
Gosto de ti porque sabes ser feliz como a noite e as coisas que riem. Como em tempos gostei dela por ser forte como o aço e, ainda assim, trazer mimos e mel a jorrarem fartos no bolso da armadura. Antes de ser aquilo em que depois se transformou: rude, azeda e antipática, sempre mal disposta, com insultos sempre prontos para cuspir pela janela do carro e uma agressividade irritável a bailar-lhe na pele e nos olhos até durante o beijo.
… Porque queres saber um segredo engraçado que descobri há pouco tempo?
Gosto sempre das pessoas pelas mesmas razões.
Por mais diferentes que entre si elas sejam.
# por presenciar
Mais um momento histórico na minha vida que tu perdeste. E de ser sempre tão assim, de nunca estares comigo quando as coisas importantes acontecem, é que eu sei que me perdeste para sempre, mesmo que eu não me convença e tu não saibas.
# (des)engano
Em vez de andares para aí a ver se descobres se queres ou se deixaste de querer, era bem melhor que te ocupasses a descobrir uma maneira de me fazeres voltar a apaixonar por ti outra vez!…
Mas isto sou só eu a pensar com os meus botões, claro está. Deus me livre de te dizer alguma coisa, que se os conselhos fossem bons não se davam: vendiam-se.
# fetiche
Sabes, Querida, hoje quiseram aproximar-se, mas antes e à cautela, perguntaram-me por ti. Como nada sabia, disse o que imaginei, que andarias algures, à solta pelas esquinas e balcões da noite, muito provavelmente na Festa do Fetiche. E então perguntaram-me que diabo poderias tu lá ter ido fazer sem mim, se no teu fetiche me transformei eu e estava ali. Fiquei a pensar no assunto. Mas pouco. Só um bocadinho, porque era sexta-feira.
# ter-te perto faz mais fácil querer-te longe
Deixa, não te importes nem consistas que te incomode demasiado. Não vês que as coisas se cumprem em ciclos? E que se tempos houve em que fomos semelhantes, se outros se sucederam em que nos tornámos quase extremas de tão opostas, voltámos, sem saber como, a ser tremendamente parecidas. Quase coincidentes, mais uma vez: eu e ela. Hoje acontece-me como lhe acontecia, não vês?! Da mesma maneira que sentir-me próxima só lhe servia para lhe ser mais fácil distanciar-se de mim; também o facto de a saber novamente por aqui, só tem servido para me aumentar a facilidade com que me sinto a afastar dela. Mais e mais e mais. A facilidade. Mais e mais e mais. O afastamento. A distância.
Não é irónico?!… Não é fantástico?!…
Surpreendentemente, hoje és “primeiras” e tens um beijo de espuma prontamente preparado para disparar na minha direcção, mal me vês chegar. E eu sorrio diante de mais uma confirmação de que segui, sim, o caminho certo. E, mais uma vez, reforço a sensação de que desta vez não é grave permitir-me estar aqui. Mesmo sabendo que estar aqui me expõe, de vez em quando, aos teus beijos. É que hoje eles são espuma e não me conseguem atravessar. Era preciso que continuassem a ser de brasa incandescente para ainda me poderem marcar.
Ia só dizer que em tempos houve, sim, um sapo na minha vida. Mas o sapo que houve na minha vida sempre foi rei. Príncipe, nunca. Portanto, príncipe nunca tive nenhum. Assim sendo, presumo que o presente-surpresa não se destinasse a mim. Suponho que me tenha chegado às mãos por mero engano.
Seja como for, e porque tenho esta coisa de não conseguir aceitar como meu o que sei não me ser destinado ou pertencer, fiz o que pude para reparar o erro. Respirei fundo e, inclusivamente, quebrei os votos de não importunar os fantasmas e deixar que descansem em paz. Falei com o único que conheço e perguntei-lhe se sabia alguma coisa a respeito. Não dizem que as almas do outro mundo sabem mais do que nós?! Pois então. Mas, no caso, não sabia. Pedi, pois, desculpa pelo incómodo, senti-me idiota e ri-me de mim mesma: como se os mortos soubessem alguma coisa do que acontece cá em baixo, onde anda a vida!…
Infelizmente, portanto, como não sei quem se enganou não posso alertar para o engano. Lamento, mas não creio que haja mesmo nada que esteja ao meu alcance fazer para desfazer o equívoco.
# dos recreios
Que alívio, minha linda, descobrir que és como eu e já não estou sozinha. Afinal não é assim tão difícil, nem complicado: tu também curvas reverência à sala mais majestosa da cidade. Tu também sabes que este palco é diferente, que são diferentes estas cortinas, este recinto onde só se está devidamente se for sentado, mas onde hoje nos colocaram de pé. Sim, tu és como eu. Sentes o indelével e ele não te pesa. Sabes do inefável, mas ele não te assusta. Percebes o que é sagrado mas não perdes o riso. E não te sentes nauseada, nem fazes cara de enjoada, nem te tomas de ânsias, palpitações e tonturas, nem foges espavorida diante da grandeza imensa das coisas.
E é tão bom, minha linda, tão bom!… Voltar a estar aqui sem me sentir sozinha no meio de tanta gente. Voltar a sentir-me tão acompanhada que o mundo inteiro desaparece num ápice e é como se nem me lembrasse de mais alguma coisa que existisse, como se tudo desaparecesse em redor e só ficássemos nós as duas, que somos melhores do que tudo o mais que para além de nós possa existir.
Aconteceu-me esta noite e foi mágico. Dar-me conta de que ainda é possível rir e ser leve e livre e grande e feliz e tranquila aqui dentro deste lugar. Ao lado de alguém. Na verdadeira companhia de alguém. Como nunca mais tinha acontecido. Nem sequer nas poucas vezes que, depois de tudo, o acaso ainda conspirou favoravelmente para que aqui regressasse com ela.
E acreditarias, minha linda, se eu te dissesse que esta noite, nem que ela regressasse ajoelhada diante de mim com a franqueza deanos atrás a incendiar-lhe outra vez os olhos, eu trocaria a tua companhia e sairia de perto de ti?!
Pois acredita, minha linda. Porque é a mais sincera das verdades.
É ela a morrer, minha linda. É ela a morrer finalmente, eu sei. Eu sinto. É ela a morrer finalmente cá dentro e eu a deixar. Finalmente. Enfim. Sem fazer absolutamente nada a não ser a vontade dela. Ela a morrer finalmente e eu finalmente a deixar.