Archive for Agosto 2008
# lampejos de relance
Sim, eu podia chamar-te. Só um palavra, um telefonema, um telegrama ou uma mensagem e aposto que virias, sim. Para o meio das minhas pernas, para o centro dos meus braços. Porque nunca seria por mais do que por meia dúzia de noites mal contadas. Porque nunca haveria de ser, como bem sabes, com aquela vontade de que fosse para toda a vida, “mesmo que por um dia”. Como antigamente. E é por isso que nem mexo um dedo. Assim já não sei gostar de ti e por mais que me esforce não te preciso o suficiente para aprender a gostar.
(…)
Fica pois onde estás, que assim como assim sempre vou preferindo as minhas paixões tangíveis, que eu nasci sob o signo do fogo e a vida procura-me e acha-me mesmo fazendo eu tão pouco para a encontrar.
# maternidade
Salva-me, Querida, deste estúpido desejo de também eu voltar a querer ter outro filho, um família, ser normal como eles e ter sempre uma luz acesa dentro de casa. É uma idade perigosa, esta. Um limiar de ‘agora-ou-nunca’, capaz de me fazer fazer um qualquer disparate sem volta que, vistas bem as coisas só sirva para ainda me afastar mais de ti e nos fazer bem mais impossíveis do que já somos. Eternamente adiadas. Por mais tempo do que este que já há tanto nos dura sem que se aviste fim ou encontro!…
# ‘marinha’
Estive na nossa praia, Meu Amor. Estive e já não queria crer que algum dia aqui fui tão feliz e também tanto chorei e sofri, até ao limite dos humanos intoleráveis. Porque hoje, tu queres crer, tentei e já nem sequer conseguia recordar-me de mais do que da cor do teu fato-de-banho, que acho que era encarnado. Achas possível??
Vês? Estou a perder a memória e a culpa é toda tua. Só tua! Inteirinha tua. Porque te demoras tanto que, mais um pouco, e eu já nem saberei com exactidão que contornos tinha o teu rosto quando olhava e amava mais do que a mim mesma.
# homens da atlântida
Algures a boiar no oceano há uma ilha de homens que me interessam e hoje sei que podia amar. Um por um, cada um por um motivo diferente e inconfundível. Eles: os descendentes da linhagem mais estreita dos atlantidas que, vá-se lá saber como, sobreviveu à fúria das águas e à amnésia das eras vindouras.
Portanto, um dia eu voltar-lhe-ei. Eu sei. Eles sabem. Todos juntos sabemos. É a lei dos ancestrais: os iguais reconhecem-se. Os que pertencem à mesma tribo avançam numa mesma direcção. Pode demorar muito tempo, mas mais tarde ou mais cedo acabam sempre por se encontrar. Convocados a um mesmo lugar. Falando a mesma língua. Em nome da espécie. Para prevenir a sua derradeira extinção.
# meio século nas veias
Gosto disso que ficou do rasto apagado de todas as mulheres que passaram pela tua vida. E desse efeito contra o qual lutas, quando me olhas incrédulo, sem nenhuma suspeita de todas as pistas e evidências que me levaram a pressentir-te. E chamas-me “princesa” porque esquecido do que foste, certo e seguro do meio século que te infla as veias, crês que não sou senão a sereia da lenda, aquela que vem com o luar para encantar os homens e os deslumbrar enquanto a luz de prata dura no horizonte. Princesa e sereia diante de ti: uma prenda das águas, destinada a premiar aqueles que resistiram sem partir, teimosos e tinhosos, firmes como um baluarte edificado no planalto além-mar, que se dissolve entre a espuma, quando a maré arremete.