Archive for Agosto 2009
# cântaro em beira de fonte
Com a idade sinto vir vindo esta coisa de me dar mais gozo o jogo do que o lance. Prefiro este limbo que termina no derradeiro instante em que tudo está ainda e para sempre em potência e despeço-me antes da concretização do mais ínfimo movimento inicial. Que é para tudo poder ficar para sempre a poder ser tudo e mais o mais que se queira. Profundamente sebástica, eu, portanto. A esfumar-me num nevoeiro e a obrigar a que de mim não permaneça mais do que a fleuma do desejo por cumprir, eternamente adiado. Etereamente desejada, eu. E só. Por ser quanto basta e me satisfaz. Por não querer sequer chegar a ser amada. Simples! Fácil. Só.
# exercício físico
Brinca e morre aqui. Como se fosse a sério. Fazendo do meu corpo o teu treino mais exigente, o teu ginásio de eleição, o peso mais desafiante que levantas e sustens vezes sem conta, incontáveis vezes na travessia da hora longa, até todo o suor te alimentar incansável dessa fome que não se explica e estende mesa só a alguns. Os que a vida faz que se encontrem. Como nós. Tu e eu.
# mensagem de parabéns
Morde coisas à saliva que não gasto, que é para ver se me importo e faz diferença, que é para ver se ainda me lembro do que fui. Quando tu ainda eras tu e eu menos outra do que agora.
# sagitário
Talvez eu já soubesse e tu não. Talvez a única diferença entre nós tenha sido o meu privilégio de primeiro ter cruzado caminho com quem me mostrou desde cedo que ninguém tem como renegar por toda a vida a natureza de que que é feito e que, assim sendo, mais vale aceitá-lo desde o começo e nem sequer desbaratar esforços a lutar contra o impossível. Mais vale prender a não ter medo que é para não desperdiçar muito tempo a erguer barreiras vãs que, mais tarde ou mais cedo se hão-de desmoronar como juncos frágeis. Ser-se o que se é e pronto. Nenhuma tragédia, nenhum drama, nenhum preconceito. Nada de medos, nem pânicos, nem defesas.
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Talvez a vida nunca tivesse querido que te cruzasses com ninguém que te mostrasse que as muralhas da pedra mais estanque também cedem aos terramotos. Foi por isso que nunca fiz grande caso da pose, nem da aparente displicência. Porque sabia, antes de ti, que se chegasse a hora de nada te valeriam e teriam que ceder sob o fatal peso das coisas incontornáveis. E assim foi. Hoje. Aqui. Uma semana depois, os primeiros sinais claros de que começas a desistir de opor resistência. Já percebeste que és mais feliz quando não te debates contra as correntes e a ventania. Em breve perceberás sozinho o mais crucial na aprendizagem: que sempre que te entregares e deixares ir chegarás mais longe, viverás coisas que de outra forma te continuarão vedadas para sempre, não pelo facto de te serem impossíveis, mas por não seres capaz de as permitir a ti mesmo.
# em bruto
Correr-te a boca. Beber de um trago o sal de um dia inteiro do suor do teu trabalho. Do teu esforço. Dessas horas duras de um mundo que não é o meu e quero muito saber como é, como dói, como pesa.
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Sei exactamente cada uma das coisas que acho graça em ti. A começar pelo silêncio, cansada que me descubro de gente inteligente, que sabe sempre muito bem o que diz e só diz coisas interessantes, que fazem pensar e disparam o cérebro a mil. Gosto da absoluta simplicidade de não haver em ti nenhuma inquietação metafísica, de seres só força bruta, diamante sem oportunidade e por polir. Gosto dos “erro do teu português ruim” e desses dedos deformados pela vida, tão capazes de dobrar o aço e suster a pedra como de delirar leves no tactear do meu corpo. Gosto que da estranheza que as alegrias causam em ti, tão completamente pouco familiarizado com as coisas felizes, belas e delicadas. Gosto do eco inaugurar dos teus deslumbres e gosto desse rasto vago de quase medo que fica atrás dos teus olhincrédulos de mim, sempre a tentarem descortinar se sou real ou só miragem.