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“não estarias aqui se eu não escrevesse”

Acredito que viver não seja senão esta constante recolha de cifras em avalanche, que por todo o lado se sucedem, multiplicam e propagam, para ver de que modo cada um de nós as vai depois organizando, numa espécie de partitura mais densa e labiríntica, de cuja tecitura resulta aquilo a que chamamos vida e os outros teimam em dizer sermos nós.
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nas teias da ficção ficarás presa
e acordarás, mais tarde, na surpresa
de ser outra por toda a eternidade
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É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura, a ploriferação os cromossomiais encontros,
os brotos, os processos caules,
os processos sementes, os processos troncos,
os processos flores, são suas mais finas dores.
As consequências cachos, as consequências leite,
as consequências folhas, as consequências frutos,
são suas cores mais belas.
É da substância do átomo ser partível
produtivo activo e gerador.
Tudo é no seu âmago e início, patrício da riqueza, solstício da realeza.
É da vocação da vida a beleza e a nós cabe não diminuí-la,
não roê-la com nossos minúsculos gestos ratos,
nossos fatos apinhados de pequenezas.
Cabe a nós enchê-la, cheio que é o seu princípio.
Todo vazio é grávido desse benevolente risco,
todo presente é guarnecido do estado potencial de futuro.
Peço ao ano-novo, aos deuses do calendário, aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra, da vaidade “minha” desumana sozinha
nos livrem da ânsia voraz daquilo que ao nos aumentar nos amesquinha.
A vida não tem ensaio mas tem novas chances.
Viva a burilação eterna, a possibilidade: o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento, a duração inútil dos rancores!
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente e a virgindade dos dias que virão!
in Libação
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eu faço samba e amor até mais tarde
e tenho muito mais o que fazer…