Archive for the ‘Interpelos’ Category
# cântaro em beira de fonte
Com a idade sinto vir vindo esta coisa de me dar mais gozo o jogo do que o lance. Prefiro este limbo que termina no derradeiro instante em que tudo está ainda e para sempre em potência e despeço-me antes da concretização do mais ínfimo movimento inicial. Que é para tudo poder ficar para sempre a poder ser tudo e mais o mais que se queira. Profundamente sebástica, eu, portanto. A esfumar-me num nevoeiro e a obrigar a que de mim não permaneça mais do que a fleuma do desejo por cumprir, eternamente adiado. Etereamente desejada, eu. E só. Por ser quanto basta e me satisfaz. Por não querer sequer chegar a ser amada. Simples! Fácil. Só.
# fincada ao chão
Perguntas se estou segura de afundar os pés ao brotar de uma nascente, ou se acaso os adentro ao lodaçal cerrado que, junto ao ancoradouro, empresta à poça estagnada uma certa ilusão reflectida de lagoa verde. Mas sabes, não me cabe a mim dar nome e cor às águas onde se me afundam os tornozelos, que eu nasci para mergulhar e gosto de me mover a roçar o fundo de todas as coisas, sem que medo me assole de ficar presa à lama. Porque se eu fosse para ser dos cumes e da superfície, vogava no vento com o ar, tinha nascido soprada como um balão e ausente de peso como as penas que pairam. Não me teriam nascido duas pernas para dar suporte ao corpo, a crescer na direcção do chão.