Pek’s sketchbook

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Archive for the ‘Vidas’ Category

# exercício físico

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Brinca e morre aqui. Como se fosse a sério. Fazendo do meu corpo o teu treino mais exigente, o teu ginásio de eleição, o peso mais desafiante que levantas e sustens vezes sem conta, incontáveis vezes na travessia da hora longa, até todo o suor te alimentar incansável dessa fome que não se explica e estende mesa só a alguns. Os que a vida faz que se encontrem. Como nós. Tu e eu.

Escrito por Maggie C.

Agosto 25, 2009 em 10:55 am

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# sagitário

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Talvez eu já soubesse e tu não. Talvez a única diferença entre nós tenha sido o meu privilégio de primeiro ter cruzado caminho com quem me mostrou desde cedo que ninguém tem como renegar por toda a vida a natureza de que que é feito e que, assim sendo, mais vale aceitá-lo desde o começo e nem sequer desbaratar esforços a lutar contra o impossível. Mais vale prender a não ter medo que é para não desperdiçar muito tempo a erguer barreiras vãs que, mais tarde ou mais cedo se hão-de desmoronar como juncos frágeis. Ser-se o que se é e pronto. Nenhuma tragédia, nenhum drama, nenhum preconceito. Nada de medos, nem pânicos, nem defesas.

*

Talvez a vida nunca tivesse querido que te cruzasses com ninguém que te mostrasse que as muralhas da pedra mais estanque também cedem aos terramotos. Foi por isso que nunca fiz grande caso da pose, nem da aparente displicência. Porque sabia, antes de ti, que se chegasse a hora de nada te valeriam e teriam que ceder sob o fatal peso das coisas incontornáveis. E assim foi. Hoje. Aqui. Uma semana depois, os primeiros sinais claros de que começas a desistir de opor resistência. Já percebeste que és mais feliz quando não te debates contra as correntes e a ventania. Em breve perceberás sozinho o mais crucial na aprendizagem: que sempre que te entregares e deixares ir chegarás mais longe, viverás coisas que de outra forma te continuarão vedadas para sempre, não pelo facto de te serem impossíveis, mas por não seres capaz de as permitir a ti mesmo.

Escrito por Maggie C.

Agosto 15, 2009 em 8:13 am

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# em bruto

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Correr-te a boca. Beber de um trago o sal de um dia inteiro do suor do teu trabalho. Do teu esforço. Dessas horas duras de um mundo que não é o meu e quero muito saber como é, como dói, como pesa.

*

Sei exactamente cada uma das coisas que acho graça em ti. A começar pelo silêncio, cansada que me descubro de gente inteligente, que sabe sempre muito bem o que diz e só diz coisas interessantes, que fazem pensar e disparam o cérebro a mil. Gosto da absoluta simplicidade de não haver em ti nenhuma inquietação metafísica, de seres só força bruta, diamante sem oportunidade e por polir. Gosto dos “erro do teu português ruim” e desses dedos deformados pela vida, tão capazes de dobrar o aço e suster a pedra como de delirar leves no tactear do meu corpo. Gosto que da estranheza que as alegrias causam em ti, tão completamente pouco familiarizado com as coisas felizes, belas e delicadas. Gosto do eco inaugurar dos teus deslumbres e gosto desse rasto vago de quase medo que fica atrás dos teus olhincrédulos de mim, sempre a tentarem descortinar se sou real ou só miragem.

Escrito por Maggie C.

Agosto 14, 2009 em 8:19 am

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# tritão

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Tarde, lá longe, vieste-me de novo falar ao fundo. Trouxeste um lampião a arder e outra vez o aroma morno do azeite se confundiu à cera limpa que me tinham esfregado aos pés da cama. Calei-me, para ver se o barulho do vazio te confundia menos que as apneias a espaços das minhas asfixias e delírios. Deveria saber que quem boia no Atlântico não receia a noite nem o desperdício, mas só me lembrei depois. Mais tarde. Quando acordei e me sobressaltou esta vaga impressão de ter sonhado que te sorri.

Escrito por Maggie C.

Março 31, 2009 em 2:13 am

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# ponto de fuga

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Havia um sueste brando, uma costela partida, talvez uma maçã de adão por trincar. Havia uma sina moura, um degredo de fado e uma lasca em farpa que não deixou espinho à carne. Mas, então, levantou-se do fundo da eira uma poeira fina, a avançar contra o olho como uma serpentina.  Veio vindo sem mais alarde que o dos pássaros ao largo e trouxe  com ela uma névoa embriagada. Um manto. Uma capa na esguelha da asa. Uma foligem rala. E, aos poucos, ficou só uma preguiça – injusta, é provável; ainda assim uma preguiça. Qualquer coisa mal quista mas que, todavia, pareceu ainda mais doce do que o acaso de dois braços selados em redor.

Escrito por Maggie C.

Novembro 22, 2008 em 1:44 am

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# homens da atlântida

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Algures a boiar no oceano há uma ilha de homens que me interessam e hoje sei que podia amar. Um por um,  cada um por um motivo diferente e inconfundível. Eles: os descendentes da linhagem mais estreita dos atlantidas que, vá-se lá saber como, sobreviveu à fúria das águas e à amnésia das eras vindouras.

Portanto, um dia eu voltar-lhe-ei. Eu sei. Eles sabem. Todos juntos sabemos. É a lei dos ancestrais: os iguais reconhecem-se. Os que pertencem à mesma tribo avançam numa mesma direcção. Pode demorar muito tempo, mas mais tarde ou mais cedo acabam sempre por se encontrar. Convocados a um mesmo lugar. Falando a mesma língua. Em nome da espécie. Para prevenir a sua derradeira extinção.

Escrito por Maggie C.

Agosto 26, 2008 em 12:01 am

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# meio século nas veias

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Gosto disso que ficou do rasto apagado de todas as mulheres que passaram pela tua vida. E desse efeito contra o qual lutas, quando me olhas incrédulo, sem nenhuma suspeita de todas as pistas e evidências que me levaram a pressentir-te. E chamas-me “princesa” porque esquecido do que foste, certo e seguro do meio século que te infla as veias, crês que não sou senão a sereia da lenda, aquela que vem com o luar para encantar os homens e os deslumbrar enquanto a luz de prata dura no horizonte. Princesa e sereia diante de ti: uma prenda das águas, destinada a premiar aqueles que resistiram sem partir, teimosos e tinhosos, firmes como um baluarte edificado no planalto além-mar, que se dissolve entre a espuma, quando a maré arremete.

Escrito por Maggie C.

Agosto 24, 2008 em 12:19 am

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# evidências

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Soube que me amavas verdadeiramente, quando te sentaste a olhar-me dormir, só para eu poder sonhar à vontade.

Escrito por Maggie C.

Julho 30, 2008 em 3:55 am

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# critério

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Gosto de ti porque sabes ser feliz como a noite e as coisas que riem. Como em tempos gostei dela por ser forte como o aço e, ainda assim, trazer mimos e mel a jorrarem fartos no bolso da armadura. Antes de ser aquilo em que depois se transformou: rude, azeda e antipática, sempre mal disposta, com insultos sempre prontos para cuspir pela janela do carro e uma agressividade irritável a bailar-lhe na pele e nos olhos até durante o beijo.

… Porque queres saber um segredo engraçado que descobri há pouco tempo?

Gosto sempre das pessoas pelas mesmas razões.
Por mais diferentes que entre si elas sejam.

Escrito por Maggie C.

Julho 11, 2008 em 10:11 pm

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# fetiche

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Sabes, Querida, hoje quiseram aproximar-se, mas antes e à cautela, perguntaram-me por ti. Como nada sabia, disse o que imaginei, que andarias algures, à solta pelas esquinas e balcões da noite, muito provavelmente na Festa do Fetiche. E então perguntaram-me que diabo poderias tu lá ter ido fazer sem mim, se no teu fetiche me transformei eu e estava ali. Fiquei a pensar no assunto. Mas pouco. Só um bocadinho, porque era sexta-feira.

Escrito por Maggie C.

Julho 4, 2008 em 11:50 pm

Publicado em Testamento, Vidas